Existe um sentimento duplo quando um amigo lança um trabalho excelente.
O primeiro é simples. Alegria. Daquelas sem filtro. A satisfação genuína de ver alguém por quem você torce há anos acertar a mão, encontrar o caminho, produzir algo que faz sentido. Sobretudo quando não se trata apenas de amizade, mas de merecimento. Porque uma das coisas mais bonitas da vida adulta é descobrir que alguns amigos continuam trabalhando enquanto o resto do mundo muda de assunto.
O segundo sentimento é mais complicado. É o pudor.
Aquela voz interna que manda tomar cuidado. Que sussurra para não exagerar. Que alerta para o risco de parecer que você está elogiando porque conhece o sujeito, tomou cerveja com ele, dividiu conversas, histórias, noites e shows.
Quem escreve sobre cultura convive com isso o tempo todo. Existe uma espécie de polícia invisível dentro da cabeça dizendo: cuidado para não parecer parcial.
Mas chega uma hora em que eu simplesmente ligo o botão do “f-se”.
Porque amizade não transforma música ruim em música boa. E música boa também não deixa de ser boa porque foi feita por um amigo.
Foi exatamente isso que pensei ao ouvir “O Bebê de Mussolini”, novo single do Terminal Guadalupe.
A faixa abre caminho para Ensaio sobre a Urgência, sexto álbum de estúdio da banda curitibana, previsto para agosto, e marca a estreia de uma nova formação liderada por Dary Jr. e Allan Yokohama, ao lado de Gabe Salmazo e Luciano Vassão.
Mais importante do que a troca de integrantes, porém, é perceber que o Terminal continua fazendo aquilo que poucas bandas brasileiras conseguem fazer sem soar panfletárias, professorais ou datadas: transformar inquietação política em canção. Não é uma tarefa simples.
O rock brasileiro passou anos oscilando entre duas armadilhas. De um lado, o comentário social preguiçoso. Do outro, a militância que sacrifica a música em nome da mensagem.
“O Bebê de Mussolini” escapa das duas.
A inspiração veio da expressão “bebê reborn do fascismo”, usada por Jones Manoel para definir personagens da fauna ultraconservadora nacional. O Terminal transforma essa imagem em algo maior: uma reflexão sobre a normalização do autoritarismo em tempos de algoritmos, influenciadores, vídeos curtos e indignação industrializada.
O alvo não é apenas a extrema-direita. É a máquina que transforma mentira em engajamento, ódio em identidade e caricaturas ideológicas em produto de consumo.
Musicalmente, a faixa funciona porque não depende apenas do discurso. Há tensão. Há urgência. Há um senso de colisão permanente entre guitarras, ritmo e interpretação. As referências citadas — System of a Down, Gang of Four, U2 e Bad Religion — aparecem mais como fantasmas circulando pela sala do que como modelos copiados. A canção tem personalidade própria.
Quem acompanha o Terminal Guadalupe desde os anos 2000 sabe que a banda nunca encontrou conforto na repetição. Mesmo durante o hiato entre 2011 e 2021, o grupo parecia existir num estado de suspensão, aguardando o momento de voltar a produzir.
Quando voltou, voltou diferente.
Agora e Sempre, em 2022, trouxe uma banda mais experimental, menos preocupada com fronteiras de gênero e mais aberta ao inesperado.
Depois veio Serenata de Amor Próprio, em 2025, incluído entre os cem melhores lançamentos do ano pela APCA, confirmação de que aquela retomada não era nostalgia nem acaso.
Agora chega este novo capítulo. E aqui faço uma confissão.
Durante muito tempo, minha favorita do Terminal Guadalupe foi Recorte Médio Oriental. Continua sendo uma canção que considero especial, dessas que parecem crescer com os anos em vez de envelhecer.
Mas “O Bebê de Mussolini” traz sinais de que Ensaio sobre a Urgência pode disputar esse lugar.
Ainda é cedo para decretar qualquer coisa. Um single não é um álbum.
Mas existe algo acontecendo aqui.
Uma combinação rara de maturidade, indignação, identidade e capacidade de observação que poucas bandas conseguem alcançar depois de mais de vinte anos de trajetória.
Talvez porque o Terminal Guadalupe tenha entendido algo que boa parte da música brasileira esqueceu: urgência não é gritar mais alto. Urgência é perceber o que está acontecendo ao redor antes que todo mundo perceba. E transformar isso em canção.
Dary Jr. e companhia fizeram exatamente isso. Como amigo, fico feliz. Como ouvinte, fico impressionado. Como jornalista, registro. E pronto.


